
Autor: Rúben Quadros Ramos
As Sanjoaninas 2026 associam-se às comemorações do cinquentenário da Autonomia. Cinquenta anos podem parecer pouco à escala da história, mas representam uma transformação decisiva na vida destas ilhas. A Autonomia foi — e continua a ser — um instrumento fundamental de valorização e dignificação da nossa condição insular. Importa, porém, recordar que a ideia de autogoverno não nasceu em 1976. É uma aspiração antiga, que acompanha a construção da nossa identidade. Desde que os Açores ganharam relevância estratégica no contexto das Grandes Navegações, tornou-se evidente que governar estas ilhas exigia atenção às suas particularidades. Longe do continente, separados pelo mar, sempre enfrentamos desafios próprios — ora naturais, económicos ou sociais — que nem sempre foram plenamente compreendidos a partir de fora.
Logo no século XVI, com a criação da Diocese de Angra, reconhecia-se a necessidade de existir uma estrutura própria ajustada à realidade insular. Mais tarde, no século XVIII, com a Capitania Geral dos Açores, criou-se uma administração unificada do arquipélago — uma experiência embrionária de governação autónoma. Já no final do século XIX, a autonomia administrativa dos distritos insulares representou uma abordagem diferente. Ainda assim, durante demasiado tempo, os Açores viveram marcados pelo abandono e pela escassez de oportunidades, sendo a emigração um destino inevitável para muitos.
Foi o 25 de Abril que abriu definitivamente espaço às reivindicações históricas dos açorianos. Em 1976 nasce a Região Autónoma dos Açores, afirmando um princípio simples e essencial: quem aqui vive é que sabe como aqui quer viver. A Autonomia permitiu consolidar as instituições, investir em infraestruturas e fortalecer os serviços públicos. Travou o ciclo da emigração forçada e criou a possibilidade real de viver com dignidade no arquipélago. Mas a Autonomia não pode ser dada como garantida; exige vigilância e responsabilidade permanentes, sobretudo quanto aos riscos da centralização excessiva e das descentralizações levianas.
Foi a partir desta reflexão que construí este cartaz. No centro da composição surge uma figura feminina que personifica a Autonomia, num momento simbólico onde se encontram o passado, presente e futuro.
Em retrospectiva, não há dúvida de que a história institucional dos Açores tem raízes profundas nesta cidade. As centralidades que Angra foi assumindo ao longo dos séculos, muito por força da sua baía, estão representadas na Sé, no Palácio dos Capitães-Generais e nos Paços da Junta Geral. Assim, é justo afirmar que a Autonomia tem os pés bem assentes aqui.
De olhos postos no horizonte, a figura volta-se para o futuro, na certeza de que a emigração já não é a única saída e de que o mar é o seu bem mais precioso. No topo do cartaz, o açor dourado e as nove estrelas evocam a bandeira dos Açores — o símbolo maior da nossa Autonomia.
No presente, na espuma de dias incertos, violentos e aflitivos, à Autonomia e aos açorianos, resta-nos confiar no manto do Divino Espírito Santo.
No cinquentenário da Região Autónoma dos Açores, celebramos o caminho percorrido e reforçamos a responsabilidade de continuar a construir o futuro. Porque a Autonomia não é apenas uma forma de governo — é uma afirmação de identidade, de dignidade e de confiança no nosso próprio destino.