Tema

Autor: Tomé Ribeiro Gomes

Aos cinquenta anos, a autonomia regional merece ser celebrada. Celebrada não só no sentido cerimonial do termo, usado para ocasiões como os feriados nacionais, em que as figuras centrais da nossa vida nacional fazem discursos, as Forças Armadas desfilam perante o povo e todos se põem em sentido para ouvir o hino.

Merece isso, é certo, mas também merece outro tipo de celebração. Aquela que tem lugar quando fazemos anos ou casamos ou assistimos à vitória da nossa equipa: a celebração enquanto festa. Porque nos Açores, e em particular na Ilha Terceira, sem festa não há povo, e sem povo a autonomia não teria nada dentro.

Foi esse povo que, nesta e noutras ilhas, viveu o tumultuoso processo de criação da democracia, entre 1974 e 1976, debatendo o seu futuro entre muitos outros possíveis. O resultado foi um estatuto político-administrativo inédito no ordenamento jurídico português: a autonomia regional. As nove ilhas passaram a ser uma só entidade política, embora uma entidade composta por várias comunidades. É o mar que as isola, que as separa umas das outras e do resto do mundo.

No seu isolamento determinado pela geografia – que nos Açores “vale outro tanto como a história”, escreveu Nemésio – cada comunidade ganha os seus hábitos, as suas maneiras de falar, de ser e de pensar. Porém, o compromisso autonómico convoca-as para uma conversa sobre o destino comum do arquipélago.

Este debate sobre o nosso futuro partilhado é o cerne da autonomia. Se queremos saber para onde vamos, temos primeiro de saber de onde partimos. Ou seja, saber quem somos. Esta pergunta não encontra resposta no abstrato, mas sim da prática diária da açorianidade. A resposta esconde-se algures no nevoeiro, na gastronomia, nos sotaques, nas cantigas populares, na aflição dos sismos, no Espírito Santo, e em tantas outras coisas que tomamos por banais, mas que nos tornam únicos.

Tudo isto é nosso, mas também é para partilhar, não fosse o gosto de bem receber outro traço distintivo açoriano. Nestas festas, os angrenses abrem as portas da cidade às outras ilhas, ao continente, à diáspora, para que venham viver a sua riquíssima cultura. Durante estes dias, Angra é o ponto de encontro do arquipélago onde, com descontração, alegria e generosidade, se prova que os açorianos são um povo. O que é algo que nem todos podem dizer.